segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Santa Teresinha e os Santos Anjos




Santa Teresinha de Lisieux tinha uma devoção particular aos Santos Anjos, que combina muito bem com o seu pequeno caminho. Não foi o próprio Senhor que aliou a presença e o cuidado dos Santos Anjos à infância espiritual ao ensinar: “Guardai-vos de menosprezar um só destes pequenos, porque Eu vos digo que seus Anjos no Céu contemplam sem cessar a Face de Meu Pai que está nos Céus” (Mt 18,10)? Ao examinarmos o que Santa Teresinha diz sobre os Anjos, não devemos esperar um tratado detalhado, é mais uma “melodia” que nasce do seu coração. Os Santos Anjos faziam parte da sua vida desde a mais tenra infância.

Já aos nove anos, antes da sua primeira Comunhão, Teresinha se consagrou aos Santos Anjos como membro da Irmandade dos Santos Anjos: “Consagro-me solenemente ao vosso serviço. Na presença de Deus, da bem-aventurada Virgem Maria e das minhas companheiras, prometo guardar a fidelidade e esforçar-me para imitar as vossas virtudes, especialmente o vosso zelo, a vossa humildade, obediência e pureza”. Sendo ainda aspirante, havia rezado: “Prometo venerar especialmente os Santos Anjos e Maria, sua augusta Rainha... Com toda diligência quero me esforçar para emendar minhas faltas, adquirir as virtudes e cumprir meus deveres escolares e cristãos”. Os membros dessa Associação cultivavam também umadevoção especial ao Anjo da Guarda, ao qual rezavam: “Santo Anjo de Deus, príncipe do céu, sois um vigilante guarda e amoroso pastor. Alegro-me com as múltiplas perfeições com as quais Deus vos criou. Alegro-me por terdes sido santificado por Suas graças e coroado de glória em recompensa da fidelidade em Seu serviço. Deus seja eternamente louvado por todos os benefícios que Ele vos dispensou. Sede também vós louvado por todo o bem que nos fazeis! Dou-vos o meu corpo, minha alma, minha memória, minha inteligência, minha fantasia e minha vontade. Regei-me, iluminai-me, purificai-me e disponde de mim segundo o vosso agrado” (Manual da Associação dos Santos Anjos, Tournai).




Só o fato de, como criança, ela fazer essa consagração e rezar essas orações, evidentemente não significa ainda que os Santos Anjos formam uma parte da doutrina espiritual da futura Doutora da Igreja. Porém, depois de amadurecer, não somente voltou com alegria a essas consagrações, mas entregou-se, de diversas formas, aos cuidados dos Santos Anjos, como veremos mais adiante. Isso mostra quanta importância ela dava a essa ligação com os Santos Anjos. Na História de uma alma, ela escreve: “Quase imediatamente depois da minha entrada no colégio das freiras, fui recebida na Associação dos Santos Anjos; amava as devoções que ela prescrevia, porque me sentia atraída pela invocação dos Espíritos celestes, principalmente daquele que Deus me deu como companheiro do meu exílio” (História de uma alma, cap. IV, 40v).

O SANTO ANJO DA GUARDA
Teresinha cresceu numa família que venerava muito os Santos Anjos. Em diversas ocasiões seus pais falavam espontaneamente sobre eles (cf. História de uma alma, cap. I, 5; Carta 120). Também Paulina, sua irmã mais velha, assegurava-lhe diariamente que os Anjos estariam com ela para vigiar e protegê-la (cf. História de uma alma, cap. II, 18 v). Na sua peça teatral, A fuga para o Egito, ela entra em aspectos importantes da missão do Anjo da Guarda. A bem-aventurada Virgem diz a Susana, esposa de um bandido e mãe do pequeno Dimas que sofre de lepra: “Desde seu nascimento, Dimas é acompanhado sempre por um mensageiro celeste quenunca o abandona. Assim como ele, vós também tendes um Anjo encarregado de vos guardar, dia e noite; ele é quem vos inspira bons pensamentos e as ações virtuosas”. Susana responde: “Ninguém, além de vós, inspirou-me bons pensamentos e ainda não vi o mensageiro do qual me falais”. Maria assegura-lhe: “Bem sei que nunca o viste, porque o Anjo ao teu lado é invisível, todavia, ele está aí e é tão real como eu mesma. É graças às suas inspirações celestes que sentistes o desejo de conhecer a Deus e de vê-l’O aproximar-Se de vós. Todo o tempo do vosso exílio na terra, essas coisas serão mistério para vós, mas quando o tempo acabar, vereis o Filho de Deus na Sua majestade, vindo sobre as nuvens do Céu acompanhado de todas as Suas legiões de Anjos” (2o Ato, Cena 6). Desta forma, Teresinha nos dá a entender que, durante a sua “carreira” de bandido, o Anjo de Dimas guardou-lhe fidelidade e ajudou-lhe a reconhecer finalmente a Divindade de Cristo na Cruz e a ter ânsia de ir para Deus, de maneira que, no último momento, com a ajuda do Santo Anjo ele conquistou o Céu e se tornou o Bom Ladrão.
Procurava a orientação e a proteção do Anjo da Guarda na sua vida pessoal para não cair em pecado: “Anjo da minha Guarda, cobre-me com as tuas asas, clareia com teus fogos a estrada que sigo; vem dirigir meus passos e auxiliar-me, te peço, agora no presente”. “Ó meu Santo Anjo da Guarda! Cobri-me sempre com vossas asas para que eu jamais tenha a infelicidade de ofender a Jesus” (Poesia 5, versículo 12 e Oração 5, versículo 7v). Confiando na íntima amizade com seu Anjo, Teresinha não temia pedir-lhe grandes graças. Assim, ela escreveu ao seu tio que estava de luto pela morte de um amigo: “Confio-me ao meu bom Anjo, penso que um mensageiro celeste vai se ocupar do meu recado, envio-o junto do meu caro tio, para derramar o consolo no Seu coração, tanto quanto pode a nossa alma conter neste vale de exílio...” (Carta 59, 22 de agosto de 1888). Da mesma forma, ela podia mandar o seu Anjo ao santo Sacrifício da Missa que seu irmão espiritual, Pe. Roulland, missionário na China, celebrava para ela: “No dia 25 de dezembro, não deixarei de enviar o meu Anjo a fim de que coloque as minhas intenções junto à hóstia que será consagrada por vós” (Carta 201, 1o de novembro de 1896).

UNIDA AOS ANJOS
Santa Teresinha não procurava nem visões nem consolações: “Como sabeis, o meu pequeno caminho consiste justamente nisso que não se procura ser alguma coisa. Sabeis bem o que disse tantas vezes a Deus, aos Anjos e aos Santos: que não tenho o desejo de vê-los no aquém ...” (O Caderno Amarelo, 4 de junho de 1897). “Também nunca desejava ter visões. Na terra, não se podem ver os Anjos como são. Prefiro esperar até a minha morte” (idem, 5 de agosto de 1897). Não lhe parecia ser uma coisa extraordinária ficar, muitas vezes, sem consolo na Santa Comunhão. “Não posso dizer que nas minhas ações de graças tenha recebido muitas consolações. Talvez sejam os momentos em que menos sinto consolo... Isto me parece muito natural porque me ofereci a Jesus não como alguém que deseja receber a Sua visita para a própria consolação, mas antes para a alegria d’Aquele que Se dá a mim” (Manuscritos autobiográficos, p. 179). Como ela se preparava para a vinda do Senhor na Santa Comunhão? Continua relatando: “Imagino minha alma como uma área livre, e peço à Santíssima Virgem remover todo o entulho que a impediria de ser livre. Depois, suplico-lhe que ela mesma levante ali uma ampla tenda digna do Céu, e a adorne com seus próprios ornamentos. A seguir, convido todos os Santos e Anjos a vir e executar um grandioso concerto. Ao que me parece, quando Jesus desce ao meu coração, fica contente por se ver tão bem recebido, de minha parte eu também fico contente...” (idem). Também os Anjos alegram-se com essa ceia nupcial que nos constitui como ‘seus irmãos’.

Teresinha não se contentava só com a ajuda dos Anjos, desejava também a sua amizade e umaparticipação muito íntima na grandeza do seu amor a Deus. Ela desejava ser adotada como filha, como exprime na oração: “Ó Jesus, sei que ‘amor só com amor se paga’. Por isso, procurei e encontrei um meio de consolar meu coração, retribuindo-Te amor com amor. [...] Lembrando-me da súplica de Eliseu a seu Pai Elias, quando se animou a pedir-lhe seu espírito em dobro, apresentei-me diante dos Anjos e Santos e falei-lhes: ‘Sou a mínima das criaturas, conheço minha miséria e fraqueza, mas sei também quanto os corações nobres e generosos gostam de fazer algum bem. Suplico-vos, portanto, bem-aventurados Moradores do Céu, adotai-me como filha. Para vós, unicamente,será a glória que me fizerdes adquirir. Dignai-vos, porém, atender minha súplica, que é ousada, bem o sei, mas ainda assim tenho a audácia de vos pedir que me obtenhais vosso amor em dobro” (Manuscritos Autobiográficos, p. 202). Santa Teresinha não somente aproveitou a intercessão e o auxílio dos Anjos, mas até chegou a ‘exigir’ uma participação na santidade deles a fim de que pudesse crescer nela. Suplicava também a seu Anjo da Guarda: “Ó belo Anjo da pátria, dai-me o vosso zelo! Não tenho nada a não ser os meus sacrifícios e a minha pobreza. Com a vossa bem-aventurança, oferecei-os à Santíssima Trindade!” (Poesia 46: “A meu Anjo da Guarda”).

Teresinha sentia-se profundamente ligada aos Anjos através da sua consagração religiosa. “A castidade faz-me irmã dos Anjos, dos espíritos puros e vitoriosos” (Poesia 48: “Minhas armas”). Os Anjos apreciam muito os consagrados a Deus devido à sua relação esponsal com Cristo - na qual toda alma pode participar. Por ocasião da sua Profissão Religiosa, a nossa Santa escreveu para a Irmã Maria Madalena do Santíssimo Sacramento: “Hoje, os Anjos têm inveja de vós, Maria, por causa da vossa felicidade de ser noiva do Senhor, o que os Anjos também gostariam de ser” (Poesia 10: “História de uma pastora que se tornou rainha”).

O SOFRIMENTO E OS ANJOS
Teresinha tinha consciência da diferença entre Anjo e homem. Pensar-se-ia que ela teria inveja dos Anjos, mas é o contrário! Ela tinha entendido a grandeza da Encarnação. “Quando vejo o Eterno envolvido em paninhos e ouço o fraco choro desse Verbo divino, ó Mãe querida, não invejo mais os Anjos, porquanto o Onipotente é meu amado Irmão! ...” (Poesia 54: “Porque eu te amo, Maria”). Também os Anjos compreendem profundamente o alcance da Encarnação e teriam, se fosse possível, inveja de nós pobres criaturas de carne e sangue. Num teatro natalino, no qual ela dá nomes aos Anjos conforme suas tarefas em relação a Cristo - por exemplo, o Anjo do Menino Jesus, o Anjo da Sagrada Face, o Anjo da Eucaristia - ela coloca na boca do Anjo do Juízo Final o canto:“Diante de Ti, doce Criança, o Querubim se inclina! Admira, espantado, Teu inefável amor. Quer, como Tu, sobre a sombria colina poder um dia morrer!” Então todos os Anjos cantam o estribilho: “Como é imensa a alegria da humilde criatura. Nos seus arrebatamentos os Serafins desejam deixar, ó Jesus, a angélica natureza, e fazer-se criança!”. (Os Anjos no presépio, cena final). Aqui nos deparamos com o motivo da estima de Santa Teresinha para com os Anjos, isto é: sua ‘santa inveja’ em relação aos homens, pelos quais o Filho de Deus Se fez homem e morreu. Na poesia em honra de Santa Cecília, um Serafim explica esse mistério a Valeriano da seguinte forma: “Eu me abismo em Deus, Seus encantos contemplo, mas não posso imolar-me nem sofrer por Ele. Não posso Lhe ofertar nem lágrimas nem sangue; apesar de todo meu amor, não posso morrer... A pureza de um Anjo é a herança luminosa de uma felicidade imensa que não passa, mas neste ponto, sim, vós venceis os Serafins: sois puros e, além disso, ainda podeis sofrer” (Poesia 3: Santa Cecília).

Mais adiante, Jesus Se dirige a um Anjo com as seguintes palavras cheias de luz e consolo: “Ó tu! que quiseste na terra compartilhar Minha cruz, Minha dor; belo Anjo, escuta este mistério: toda alma padecente é irmã tua. No Céu, o brilho do seu sofrimento virá também na tua fronte recair, e o brilho da tua pura essência iluminará o mártir!” (Os Anjos no presépio, Cena 5,10-11). Portanto,no Céu, Anjo e homem terão comunhão, parte e alegria com a glória do outro. Assim, na economia da salvação existe uma maravilhosa e íntima comunhão de pessoas.

A SUA MISSÃO NO CÉU E NA TERRA
Aproximando-se da morte, Santa Teresinha confessou: “Sinto que vou entrar no repouso... Mas sinto principalmente que minha missão vai começar; minha missão de fazer com que amem o bom Deus como eu O amo; de dar às almas a minha pequena via. Se o bom Deus realizar os meus desejos, meu Céu se passará na terra, até o fim do mundo. Sim, quero passar o meu Céu fazendo bem sobre a terra. Não é impossível, pois na própria visão beatífica os Anjos velam por nós” (O Caderno Amarelo, 17 de julho de 1897). Assim vemos qual concepção da sua missão celestial ela tinha, à luz do serviço dos Anjos.

Ao Pe. Roulland ela escreve: “Ah! Meu irmão, sinto, ser-vos-ei muito mais útil no Céu do que sobre a terra e é com felicidade que venho anunciar-vos meu próximo ingresso nessa bem-aventurada Cidade, certa de que compartilhareis da minha alegria e agradecereis ao Senhor por dar-me os meios para ajudar-vos mais eficazmente nas vossas obras apostólicas. Não pretendo ficar inativa no Céu, meu desejo é continuar trabalhando para a Igreja e as almas. Peço isto a Deus e tenho certeza que Ele atenderá meu pedido. Sem que cessem de ver a divina Face, perdendo-se no Oceano infinito do Amor, os Anjos não se ocupam de nós continuamente? Por que Jesus não me permitiria imitá-los?” (Carta 254, 14 de julho de 1897).




PENSAMENTO FINAL
Vejamos o pequeno caminho de Santa Teresinha na luz dos Anjos! Os Anjos constituem um elemento importante da sua vida interior. Eles eram seus companheiros e irmãos, sua luz, sua força e sua proteção no caminho espiritual. Podia contar com eles, os servos fiéis de nosso Senhor Jesus Cristo. A eles, Teresinha tinha se consagrado quando era criança, e a eles se confiava como filha espiritual quando já adulta. Santa Teresinha é uma estrela que guia os membros da Obra dos Santos Anjos porque, se não nos tornarmos como crianças - e essa é a essência do pequeno caminho - nunca chegaremos a uma relação verdadeiramente íntima com os Santos Anjos. Só nesse caminho poderemos cumprir a nossa missão no serviço de Cristo e da Sua Igreja em união com os Santos Anjos.

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