quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O labirinto (ou A chegada da luz e da misericórdia)

Labirinto

''Não sei por onde, eu não sei como;
E o gosto disso é bem assim:
Eu não sabia, agora sei; daí entala.
Num só minuto a vida é clara,

No outro escura, saída rara;
Você aparece...
De onde vens? Não tinhas ido?
E eu fugido? De onde vens?
Lampejos breves; daí as preces.
Sentido duro, mal absurdo.
A noite é longa, o dia chato.
Suportando, viajando,
A cara inchada.
Entranha, tal qual erosão.''




Um mês. Primeiro. De tantos. Antes o menino achava tantas coisas. Achar. deveria achar-se, tal menino. E o fez.

A dinâmica do labirinto na Psicologia possui fôlego, entre tantos, por meio dos escritos da Dra. Lauren Artress. Ela refere-se ao Labirinto como uma figura arquetípica para o ser humano, representativa de caminhos e jornadas de diversos significados simbólicos na vida. Lembra que o círculo do labirinto é um símbolo universal de unidade e totalidade, de modo que desperta nas pessoas um sentido de relacionamento, de vínculo com as outras pessoas, com o todo, estimulando intuitivamente memórias do nosso propósito de viver. Teoria. Importante, sim, mas que tem uma síntese simples, porém rica no coração do menino: o labirinto era ele. Era dele. Pertença.

Ter era algo novo também (afinal, o que não era?). Acima de tudo ter algo que sempre lhe pertenceu era além do entendimento do menino. Ele estava entorpecido pelos acontecimentos da vida. cegueira física e de e percepção. Amarras. Tangivelmente, as mãos atadas. Intangivelmente, visão turva e escuridão. Dor.

Então veio a Luz. Inicialmente, enxergou-se. Sorriu. despertou! Era Luz. sempre o foi, agora vocacionalmente, sim. Porém, as amarras abstratas ainda residiam. Até que depois de um tempo, cansado e mutante, o menino encontrou a Misericórdia. Foi aí que as duas irmãs vocacionais, desataram o que ainda residia naquele pequeno ser.

Ah, qual valorosa surpresa a do menino! Ele tinha algo seu agora. Percebia! Tinha. Tem! Seu! Um mundo! A vocação! As possibilidades! Ressurreição!

Tudo era novo. Então o amigo surge novamente. Este amigo representa tantos e ao mesmo tempo é tão próprio, tão particular. Não fez sentido? Ah, mas no mundo do menino, tem todo! Perguntou ao amigo de abraço adjetivo se ele poderia considerar ter entrado com ele no labirinto. Como um raio de sol, riu-se o amigo. Não da situação ou do menino, mas de sua inocência. Do seu novo a ser descoberto. ''O labirinto é teu... o poderoso nele é você. Quem autoriza entrada e saída é você!'', disse com a voz alegre o amigo. E que novidade! Um novo verbo. Ter. Tinha. Sempre teve, agora, percebendo pela luz e misericórdia, tem! O menino tem herança, das mais valiosas...

Para o menino foi preciso, depois de tempos idos, acostumar-se com a luz e a misericórdia para entender o sentimento de pertença. Só assim, começou a encarar o longo caminho dentro do labirinto. E era bem peculiar aquele seu lugar. 

O labirinto do menino é mesclado. Uma parte verde, florida, de altas paredes de gavinhas e flores. Em outras partes, há seca, galhos, escuridão. O menino, após perder as quase todas as amarras, encontra-se há passos da parte escura, onde fica sua casinha. Há uma imagem da Rainha na frente, uma árvore com balanço e uma mesa de café e chocolates. O amigo achou simpática. O menino também.

Há na casa, espaços organizados e outros em caos. Quanto mais próximo do escuro, maior o caos. Há um mês, o menino recordou com alegria que o amigo havia chegado. Despretensioso, acolhedor, amigo. A primeira coisa foi ele fez, foi passar da Torre Rosada de negras grades, bem ali, próxima à entrada escura. Foi quando o menino sentiu o indescritível encontro entre a Luz e a Misericórdia. Equilibrado. Harmônico. Concomitante. Dois corações. Duas vocações. Um abraço. O labirinto ressurgiu.

O balanço se agitou, o café esquentou, as folhas se foram... Após o abraço, o amigo tomou a cadeira caída e buscou alegremente ouvir ao menino. Havia (e ainda há) muito a ser dito. Quantas estórias, lágrimas, marcas... Com as lágrimas, o menino regou uma parte do jardim. Algumas plantinhas ressequidas floresceram e, pelo visto, assim tem sido a cada visita, a cada mensagem, a cada abraço.

Construção. Foi isso feito no labirinto. Ainda o é. Vivencia-se o gerúndio. Gerundiar. Gerundiando... Certa vez, o amigo solicitou permanência. O menino apressou-se em separar os lençóis, de polir as estrelas e clarear a lua. Era seu amigo que ali montava tenda. E assim o fez. Ali deitou e dormiu e todo o labirinto contemplava a alegria do menino em cuidar do seu amigo, porque assim Deus sonhou em sua vida. Em minha vida.

Essa é história para uma próxima partilha.

Até breve! Eu prometo!

João

Ü



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