terça-feira, 28 de agosto de 2012

A Florista





"A noite abre as flores em segredo e deixa que o dia receba os agradecimentos"

Rabindranath Tagore

Certa vez, cultivando os morangos no jardim da casinha, o Menino foi surpreendido por uma borboleta. Não era apenas mais uma, porém, a Borboleta sorria-lhe. E ele sorriu de volta. Percebeu com muito espanto que, na medida em que ele ia sorrindo e ficando mais feliz, a delicada criatura acompanhava seu ritmo de felicidade. E dava piruetas no ar. Expressão divina. Sorrisos.

Ele voltou ao cultivo perplexo pela descoberta. Mais uma de tantas, que no último mês aconteceram. Essa realmente mexeu com seu âmago. Porém, o dia estava apenas começando no labirinto...

A brisa leve fez com que ele percebesse o chão que cultivava. Era o mesmo solo de outrora, onde suas lágrimas já haviam tocado. O Amigo certa vez lhe falava a respeito disso. Que suas lágrimas não eram em vão. E que surpresa! As flores estavam ali, ilustrando a frase do Amigo. O que foi lágrima, tornou-se verdade! Tornou-se concreto! Sorriu. A Borboleta voou. E ela surgiu.

A primeira palavra dita foi um ''oi!''. Monossilábico, mas estranhamente familiar. Como soava bom, se sequer sabia de quem se tratava? Mas seus corações já sabiam. Estavam instigados de tanta saudade. Dois corações fraternos que há tempos não se viam. Esperavam pelo sonho do Rei concretizar-se. Era um 'oi' de amizade, de acolhida e acima de tudo, de cumplicidade.

Era a Florista. Gostava de coisas que o Menino já amava: flores, estrelas e o pôr-do-sol. Era bem conhecido do Amigo. O menino soube tudo isso em seu coração, como um eco que agora dava para ser ouvido. Eles eram fraternos ao ponto de sorrirem para o Menino e ele vivenciar o mesmo sentimento irmão. Eu chorei.

Ela veio até o Menino. O Amigo sorriu, olhou para a Rainha e lá ficou ao seus pés, recebendo do Abraço de Mãe, uma releitura do desenho que o Rei já fizera nele. Vocação. Vocações. Ao chegar para o Menino, a Florista apresentou-se. Disse que há tempos, encontrava-se em algumas descobertas que ele havia feito. Ele sorriu. Os três sorriram. Era reflexos do 'sonho mais lindo que o Rei sonhou'. Concretitude.

Ela ia falando e o Menino se alegrava porque desde todo sempre aquela voz cochichava em seu pequeno coração. O Amigo se alegrou mais uma vez. Juntou-se aos dois e apenas ouvia a conversa. Os três. O sonho. De Deus. Com a Rainha. Contrários que se encontraram. Caminhos. Vida.

Ela pediu ao Menino que falasse um pouco de si. O Amigo ajeitou-se e era todo atenção a ele. Tudo era atento a ele. A Rainha e o Rei. A Borboleta. O labirinto parava, pois seu dono ia falar. De Vida. De Cruz. De Luz. Misericórdia.

O menino estava em estado de gerúndio. Pediu aos presentes que visualizassem um grande quebra-cabeças. Assim ele era. Nele, havia inúmeras peças. Há tempos, teve que lidar com as intempéries da vida e estas mexeram com toda a estrutura. Desfez-se. Algumas peças estavam distantes umas das outras. Outras que perderam-se, mas não para sempre. Precisava resgatá-las. A Florista concordou que sim.

O menino, no ato do resgate, experienciava mais intempéries. Porém, percebia também os refrigérios divinos. Dar-se em amor era novo para ele, visto que no lado escuro e caótico do labirinto, lá na Torre Rosada de Negras Grades, sua historia de vida falava o contrário, pois era tecida ao contrário. Achava que era tarde demais. Chorou.

Nas lágrimas dele, a Florista colhia uma a uma e ia saciando a sede das pequenas flores. No instante seguinte, elas brotavam. Eram tulipas. A Tulipa já nasce serva: enfeita e colore, mas está sempre abeta para acolher o ar, a água, a vida. Jardim.


A Florista então adentrou ao labirinto do Menino. Agora eram eles três, a Rainha, o Rei e a Borboleta, por enquanto. O Menino sabia que havia mais pessoas ali. Estavam acordando. Percebendo-o novo. Restituído de si. Em breve, el falará sobre os outros abraços adjetivos.

Percebendo que o menino era só sentimentos, quis a Florista saber o que ele fazia com os sentimentos encontrados. Ele olhou para o Amigo, que com seu sorriso, deu força e ânimo. Ele sorriu de volta e seu sorrir resplandeceu o coração da Florista. Ela sorria de volta também. Três sóis. Três vidas. Amor em gerúndio. 

Disse o Menino que os sentimentos eram experimentados. E a Florista perguntava-lhe qual o gosto deles. Sorriu-se. Tímido, respondeu que, por vezes, desconfiava que eram bons. Daí, experimentava-os e eram. Por outras, cria que eram releituras dos seus larápios, que habitavam as terras da Torre Rosada. E o eram. machucava-se. Então, no seu mundo tudo se tornava cinza de novo.

Adiantou-se, curiosa a Florista, em perguntar-lhe como cuidava de tais machucados. O Menino desatou a falar! Rapidamente, respondeu o Menino. Lhe era estranho perceber uma paleta de coras onde antes não havia. Como não existia, não entendia que servia para ser encaixada em suas mãos. Silêncio. Observação. Deixava sangrar, Às vezes era rude. Estancava. em outras, apenas olhava os machucados e, só agora, percebia que podia ter abraços adjetivos ao seu redor para lhe ajudar. Era a melhor experiência de todas.

Ela sorriu. Olhava tudo ao seu redor. Encantou-se com a morada do menino. Assentiu para o Amigo como se fosse entregar ago muito deles ao outro. E houve consentimento. De sorrisos e olhares. Disse a Florista que o mesmo abraço adjetivo, poderia segurar na mão dele, pegar no pincel e desenhar novos traços com as cores que existem no Menino. Descoberta. Mais uma. Alegria. Lágrimas. Turbilhões.

A Florista sorriu. Sorriu o Menino, o Amigo, O rei e a Rainha. A Borboleta voava. Flores. balancinho. Orquídea na porta, tulipas no jardim. Ela convidou-o a visitá-la. Tomar um café. melhor! Um leite com chocolate. Ele aceitou. Sorriam-se. Eram felizes. Uma trindade sem pretensões divinas, mas que divinizavam-se pela verdade de seus corações. Uma nova Dança da Vida.

No labirinto do menino tudo começava a ser mais firme, mais belo, mais feliz. No labirinto, todos os dias brotava mais vida. E descobria-se que pode-se produzir o mesmo efeito quando esta vida era dividida com os outros. O Menino então era fruto dos dois anteriores. Já existia, mas agora, ressignificado. Gerúndio.


A Florista, entre tantas coisas, presenteou o menino com uma frase dita pelo Amigo. Dizia que ‘‘feliz aquele que encontra semelhante que lhe assegure chorar ou sorrir sem ser incompreendido”. E o Menino felicitou-se com o presente. O Amigo era só alegria. Encontros.

E assim seguiu o primeiro encontro entre os protagonistas dessa vida outrora tão cheia de coadjuvantes. O menino continuou conversando com a Florista e o Amigo alegremente. Cada um dizendo o que via em seus mundos. Marcaram um banquete para comemorar, mas isso é história para outro conto. Para outro encontro.

Até breve! eu prometo!

João

Ü


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