terça-feira, 28 de agosto de 2012

A Florista





"A noite abre as flores em segredo e deixa que o dia receba os agradecimentos"

Rabindranath Tagore

Certa vez, cultivando os morangos no jardim da casinha, o Menino foi surpreendido por uma borboleta. Não era apenas mais uma, porém, a Borboleta sorria-lhe. E ele sorriu de volta. Percebeu com muito espanto que, na medida em que ele ia sorrindo e ficando mais feliz, a delicada criatura acompanhava seu ritmo de felicidade. E dava piruetas no ar. Expressão divina. Sorrisos.

Ele voltou ao cultivo perplexo pela descoberta. Mais uma de tantas, que no último mês aconteceram. Essa realmente mexeu com seu âmago. Porém, o dia estava apenas começando no labirinto...

A brisa leve fez com que ele percebesse o chão que cultivava. Era o mesmo solo de outrora, onde suas lágrimas já haviam tocado. O Amigo certa vez lhe falava a respeito disso. Que suas lágrimas não eram em vão. E que surpresa! As flores estavam ali, ilustrando a frase do Amigo. O que foi lágrima, tornou-se verdade! Tornou-se concreto! Sorriu. A Borboleta voou. E ela surgiu.

A primeira palavra dita foi um ''oi!''. Monossilábico, mas estranhamente familiar. Como soava bom, se sequer sabia de quem se tratava? Mas seus corações já sabiam. Estavam instigados de tanta saudade. Dois corações fraternos que há tempos não se viam. Esperavam pelo sonho do Rei concretizar-se. Era um 'oi' de amizade, de acolhida e acima de tudo, de cumplicidade.

Era a Florista. Gostava de coisas que o Menino já amava: flores, estrelas e o pôr-do-sol. Era bem conhecido do Amigo. O menino soube tudo isso em seu coração, como um eco que agora dava para ser ouvido. Eles eram fraternos ao ponto de sorrirem para o Menino e ele vivenciar o mesmo sentimento irmão. Eu chorei.

Ela veio até o Menino. O Amigo sorriu, olhou para a Rainha e lá ficou ao seus pés, recebendo do Abraço de Mãe, uma releitura do desenho que o Rei já fizera nele. Vocação. Vocações. Ao chegar para o Menino, a Florista apresentou-se. Disse que há tempos, encontrava-se em algumas descobertas que ele havia feito. Ele sorriu. Os três sorriram. Era reflexos do 'sonho mais lindo que o Rei sonhou'. Concretitude.

Ela ia falando e o Menino se alegrava porque desde todo sempre aquela voz cochichava em seu pequeno coração. O Amigo se alegrou mais uma vez. Juntou-se aos dois e apenas ouvia a conversa. Os três. O sonho. De Deus. Com a Rainha. Contrários que se encontraram. Caminhos. Vida.

Ela pediu ao Menino que falasse um pouco de si. O Amigo ajeitou-se e era todo atenção a ele. Tudo era atento a ele. A Rainha e o Rei. A Borboleta. O labirinto parava, pois seu dono ia falar. De Vida. De Cruz. De Luz. Misericórdia.

O menino estava em estado de gerúndio. Pediu aos presentes que visualizassem um grande quebra-cabeças. Assim ele era. Nele, havia inúmeras peças. Há tempos, teve que lidar com as intempéries da vida e estas mexeram com toda a estrutura. Desfez-se. Algumas peças estavam distantes umas das outras. Outras que perderam-se, mas não para sempre. Precisava resgatá-las. A Florista concordou que sim.

O menino, no ato do resgate, experienciava mais intempéries. Porém, percebia também os refrigérios divinos. Dar-se em amor era novo para ele, visto que no lado escuro e caótico do labirinto, lá na Torre Rosada de Negras Grades, sua historia de vida falava o contrário, pois era tecida ao contrário. Achava que era tarde demais. Chorou.

Nas lágrimas dele, a Florista colhia uma a uma e ia saciando a sede das pequenas flores. No instante seguinte, elas brotavam. Eram tulipas. A Tulipa já nasce serva: enfeita e colore, mas está sempre abeta para acolher o ar, a água, a vida. Jardim.


A Florista então adentrou ao labirinto do Menino. Agora eram eles três, a Rainha, o Rei e a Borboleta, por enquanto. O Menino sabia que havia mais pessoas ali. Estavam acordando. Percebendo-o novo. Restituído de si. Em breve, el falará sobre os outros abraços adjetivos.

Percebendo que o menino era só sentimentos, quis a Florista saber o que ele fazia com os sentimentos encontrados. Ele olhou para o Amigo, que com seu sorriso, deu força e ânimo. Ele sorriu de volta e seu sorrir resplandeceu o coração da Florista. Ela sorria de volta também. Três sóis. Três vidas. Amor em gerúndio. 

Disse o Menino que os sentimentos eram experimentados. E a Florista perguntava-lhe qual o gosto deles. Sorriu-se. Tímido, respondeu que, por vezes, desconfiava que eram bons. Daí, experimentava-os e eram. Por outras, cria que eram releituras dos seus larápios, que habitavam as terras da Torre Rosada. E o eram. machucava-se. Então, no seu mundo tudo se tornava cinza de novo.

Adiantou-se, curiosa a Florista, em perguntar-lhe como cuidava de tais machucados. O Menino desatou a falar! Rapidamente, respondeu o Menino. Lhe era estranho perceber uma paleta de coras onde antes não havia. Como não existia, não entendia que servia para ser encaixada em suas mãos. Silêncio. Observação. Deixava sangrar, Às vezes era rude. Estancava. em outras, apenas olhava os machucados e, só agora, percebia que podia ter abraços adjetivos ao seu redor para lhe ajudar. Era a melhor experiência de todas.

Ela sorriu. Olhava tudo ao seu redor. Encantou-se com a morada do menino. Assentiu para o Amigo como se fosse entregar ago muito deles ao outro. E houve consentimento. De sorrisos e olhares. Disse a Florista que o mesmo abraço adjetivo, poderia segurar na mão dele, pegar no pincel e desenhar novos traços com as cores que existem no Menino. Descoberta. Mais uma. Alegria. Lágrimas. Turbilhões.

A Florista sorriu. Sorriu o Menino, o Amigo, O rei e a Rainha. A Borboleta voava. Flores. balancinho. Orquídea na porta, tulipas no jardim. Ela convidou-o a visitá-la. Tomar um café. melhor! Um leite com chocolate. Ele aceitou. Sorriam-se. Eram felizes. Uma trindade sem pretensões divinas, mas que divinizavam-se pela verdade de seus corações. Uma nova Dança da Vida.

No labirinto do menino tudo começava a ser mais firme, mais belo, mais feliz. No labirinto, todos os dias brotava mais vida. E descobria-se que pode-se produzir o mesmo efeito quando esta vida era dividida com os outros. O Menino então era fruto dos dois anteriores. Já existia, mas agora, ressignificado. Gerúndio.


A Florista, entre tantas coisas, presenteou o menino com uma frase dita pelo Amigo. Dizia que ‘‘feliz aquele que encontra semelhante que lhe assegure chorar ou sorrir sem ser incompreendido”. E o Menino felicitou-se com o presente. O Amigo era só alegria. Encontros.

E assim seguiu o primeiro encontro entre os protagonistas dessa vida outrora tão cheia de coadjuvantes. O menino continuou conversando com a Florista e o Amigo alegremente. Cada um dizendo o que via em seus mundos. Marcaram um banquete para comemorar, mas isso é história para outro conto. Para outro encontro.

Até breve! eu prometo!

João

Ü


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A Rainha

''Meu filho! termina o dia…

A primeira estrela brilha…
Procura a tua cartilha,
E reza a Ave Maria!

O gado volta aos currais…
O sino canta na igreja…
Pede a Deus que te proteja
E que dê vida a teus pais!

Ave Maria!… Ajoelhado,
Pede a Deus que, generoso,
Te faça justo e bondoso,
Filho bom, e homem honrado;

Que teus pais conserve aqui
Para que possas, um dia,
Pagar-lhes em alegria
O que sofreram por ti.

Reza, e procura o teu leito,
Para adormecer contente;
Dormirás tranquilamente,
Se disseres satisfeito:

''Hoje, pratiquei o bem:
Não tive um dia vazio,
Trabalhei, não fui vadio,
E não fiz mal a ninguém''


Olavo Bilac


Caía a noite. Para o menino era sempre difícil. Não sabia o por quê. Na verdade, sabia em partes. Lembrava da avó, sua rainha, ligando a rádio e sintonizando o Terço para rezá-lo espartanamente todos os dias ali no sertão. A noite chegando, as 'Aves' sonorizando o pôr-do-sol e mais um dia escurecia. Solidão.

A noite trazia consigo seus luzeiros próprios. Desde pequeno, o menino gostava da luz. A mesma que quebrou as amarras de outrora, junto à misericórdia. Quando faltava luz, sua rainha trazia-lhe pequenas velas. Brincava. Alegrava-se. A escuridão tinha outra conotação: alegria. Contradição. Infância!

Antes mesmo, devo dizer que a rainha ensinou com sua corte maternal, o conhecimento de outra Rainha. Mais majestosa, mais Augusta, mas tão Mãe quanto as outras. RainhaMaria! Mãe. A Ave Maria ensinada. A Save rainha cantada. o Angelus. AngeLUZ. Luz!

O menino traz consigo a marca da realeza maternal desde sempre, pois o amor em terra, sua rainha, ensinou-lhe perfeitamente o que era amar. Nos seus medos, quis, conforme já foi dito, esconder-se no cantinho do bolso do vestido da rainha. Sempre quis. Sempre quer. Quererá. Hoje não cabe mais ali. Amanhã... Não quero falar sobre isso. Não agora...

A rainha trouxe ao labirinto do menino a Rainha. Realezas dispares e tão nobres. Pesos e medidas. Ou uma só medida? O amor. A parte em que se encontrava a morada do menino no labirinto, era mais linda e mais feliz quando visitada pela rainha. Olhinhos marcados pelo tempo. Chorosos. Pele rosada, cabelos branco neve. Algodãozinho. Linda, ela. Histórias. Cumplicidades. Hoje dispersa em seus pensamentos. Querendo às vezes ir embora, mas sempre cuidando, sempre zelando. Amando. Gerúndio.

Uma vez, o abraço adjetivo; o amigo; fez pelo menino aquilo que a rainha faria caso encontrasse-o perante às Negras Grades do Portal Rosado: abraçaria-o. Acolheria-o. Colocaria-o no canto do bolsinho. Seriam um. E fomos.

Tudo isso para quando a noite chegar, ele não ter medo, mas perceber que era a Rainha trocando as vestes de Céu: antes claras pelo sol, agora cintilantes pela lua. Estrelas. Pedidos. Cumplicidades.

Fica bem, menino. A noite chega e vai. Com ela, vem o dia. O sol do Amor. O amor, que a rainha sempre te deu para que você uma dia dissesse: Totus Tuus.

Obrigado, Mãe. Pelas minhas mães. Minhas pequenas rainhas. Todo Teu!

+M

Até breve!

João.

Ü


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

[DivulgAção] Nós te amamos, Irã e Israel.


Criado por uma pai de família e cidadão de Israel, esse homem de 41 anos resolveu demonstrar seu amor para com seus companheiros do Irã, e fazer um apelo às pessoas para que ajudem a difundir essa mensagem e conscientizar a humanidade de que nós, não queremos guerras...o povo quer paz!

Um video lindo e comovente.

Compartilhe.

Nós te amamos, Irã e Israel.


Ü


O labirinto (ou A chegada da luz e da misericórdia)

Labirinto

''Não sei por onde, eu não sei como;
E o gosto disso é bem assim:
Eu não sabia, agora sei; daí entala.
Num só minuto a vida é clara,

No outro escura, saída rara;
Você aparece...
De onde vens? Não tinhas ido?
E eu fugido? De onde vens?
Lampejos breves; daí as preces.
Sentido duro, mal absurdo.
A noite é longa, o dia chato.
Suportando, viajando,
A cara inchada.
Entranha, tal qual erosão.''




Um mês. Primeiro. De tantos. Antes o menino achava tantas coisas. Achar. deveria achar-se, tal menino. E o fez.

A dinâmica do labirinto na Psicologia possui fôlego, entre tantos, por meio dos escritos da Dra. Lauren Artress. Ela refere-se ao Labirinto como uma figura arquetípica para o ser humano, representativa de caminhos e jornadas de diversos significados simbólicos na vida. Lembra que o círculo do labirinto é um símbolo universal de unidade e totalidade, de modo que desperta nas pessoas um sentido de relacionamento, de vínculo com as outras pessoas, com o todo, estimulando intuitivamente memórias do nosso propósito de viver. Teoria. Importante, sim, mas que tem uma síntese simples, porém rica no coração do menino: o labirinto era ele. Era dele. Pertença.

Ter era algo novo também (afinal, o que não era?). Acima de tudo ter algo que sempre lhe pertenceu era além do entendimento do menino. Ele estava entorpecido pelos acontecimentos da vida. cegueira física e de e percepção. Amarras. Tangivelmente, as mãos atadas. Intangivelmente, visão turva e escuridão. Dor.

Então veio a Luz. Inicialmente, enxergou-se. Sorriu. despertou! Era Luz. sempre o foi, agora vocacionalmente, sim. Porém, as amarras abstratas ainda residiam. Até que depois de um tempo, cansado e mutante, o menino encontrou a Misericórdia. Foi aí que as duas irmãs vocacionais, desataram o que ainda residia naquele pequeno ser.

Ah, qual valorosa surpresa a do menino! Ele tinha algo seu agora. Percebia! Tinha. Tem! Seu! Um mundo! A vocação! As possibilidades! Ressurreição!

Tudo era novo. Então o amigo surge novamente. Este amigo representa tantos e ao mesmo tempo é tão próprio, tão particular. Não fez sentido? Ah, mas no mundo do menino, tem todo! Perguntou ao amigo de abraço adjetivo se ele poderia considerar ter entrado com ele no labirinto. Como um raio de sol, riu-se o amigo. Não da situação ou do menino, mas de sua inocência. Do seu novo a ser descoberto. ''O labirinto é teu... o poderoso nele é você. Quem autoriza entrada e saída é você!'', disse com a voz alegre o amigo. E que novidade! Um novo verbo. Ter. Tinha. Sempre teve, agora, percebendo pela luz e misericórdia, tem! O menino tem herança, das mais valiosas...

Para o menino foi preciso, depois de tempos idos, acostumar-se com a luz e a misericórdia para entender o sentimento de pertença. Só assim, começou a encarar o longo caminho dentro do labirinto. E era bem peculiar aquele seu lugar. 

O labirinto do menino é mesclado. Uma parte verde, florida, de altas paredes de gavinhas e flores. Em outras partes, há seca, galhos, escuridão. O menino, após perder as quase todas as amarras, encontra-se há passos da parte escura, onde fica sua casinha. Há uma imagem da Rainha na frente, uma árvore com balanço e uma mesa de café e chocolates. O amigo achou simpática. O menino também.

Há na casa, espaços organizados e outros em caos. Quanto mais próximo do escuro, maior o caos. Há um mês, o menino recordou com alegria que o amigo havia chegado. Despretensioso, acolhedor, amigo. A primeira coisa foi ele fez, foi passar da Torre Rosada de negras grades, bem ali, próxima à entrada escura. Foi quando o menino sentiu o indescritível encontro entre a Luz e a Misericórdia. Equilibrado. Harmônico. Concomitante. Dois corações. Duas vocações. Um abraço. O labirinto ressurgiu.

O balanço se agitou, o café esquentou, as folhas se foram... Após o abraço, o amigo tomou a cadeira caída e buscou alegremente ouvir ao menino. Havia (e ainda há) muito a ser dito. Quantas estórias, lágrimas, marcas... Com as lágrimas, o menino regou uma parte do jardim. Algumas plantinhas ressequidas floresceram e, pelo visto, assim tem sido a cada visita, a cada mensagem, a cada abraço.

Construção. Foi isso feito no labirinto. Ainda o é. Vivencia-se o gerúndio. Gerundiar. Gerundiando... Certa vez, o amigo solicitou permanência. O menino apressou-se em separar os lençóis, de polir as estrelas e clarear a lua. Era seu amigo que ali montava tenda. E assim o fez. Ali deitou e dormiu e todo o labirinto contemplava a alegria do menino em cuidar do seu amigo, porque assim Deus sonhou em sua vida. Em minha vida.

Essa é história para uma próxima partilha.

Até breve! Eu prometo!

João

Ü



segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Admita

O ato de admitir exige da pessoa que o faz, disposição e humildade. Agrego a esses dois valores, a coragem e a confiança de quem, historicamente esconde-se na sombra dos atos, como ato de sobrevivência.

O menino teve que admitir. Foi preciso para ele retirar do lugar, diversos paradigmas em sua vida até chegar naquela angústia, tristeza e peso que o consumiam certa vez (ou certas vezes?). Era muito difícil. Ainda o é.

Em uma noite, o Abraço Adjetivo veio mais uma vez. Era o amigo. É. Ressignificou o ato de admitir. Ele dizia que era a forma ou uma forma de amenizar o peso, os fardos, sem imediatamente, assumir uma posição de imediato.

O menino hesitou. Tinha medo. Tem. Ainda terá por um tempo. O tempo que é necessário para entender que o novo é agora. E quando a cegueira impedia-o de perceber? A cena era alegórica, porém, cotidiana no pulsar do menino. 

Ele queria falar. Precisava. A momentânea (?) cegueira porém, tomava o papel do protagonista e fazia-o ter medos e pudores desnecessários. O amigo não poderia sofrer. Mas que contradição, o menino! O amigo sendo-o nesta condição divina, obviamente sofreria junto se assim fosse. E olha como a vida é: o óbvio nem sempre o era para todos, inclusive, para o menino.

Então houve o diálogo. Revelador. Tenso. Construtivo. Revelador, mais uma vez. O que estava acontecendo?, perguntava-se o menino. Promovera ele um mal estar? Uma querela? Não, menino, não era isso. Nunca o será. O amigo queria apenas ajudar. E o fez.

O amigo sabia onde ficava na soleira da porta do menino, a chave de sua casa. Entrava e saia quando convidado e, por vezes, quando menos era esperado. Outras vezes, era o menino que o recebia em sua porta e despedia-se dele com o abraço que sempre o devolvia aquilo que lhe era ocultado. O que foi sonhado um dia pelo Bom Deus.

E assim foi naquela noite. Palavras. Construtos. Segredos. Didática. O menino tinha medo de errar. Esquecia porém, que errar, visto na perspectiva correta, são tão importantes quantos os acertos, afirmou certa vez um sacerdote. Errar não precisa ser fonte de castigos. Podem ser fontes de virtudes, a serviço do aprendizado. E isso foi devolvido ao menino. Refletiu. 

O menino e o amigo travaram um diálogo percebido por duas esferas: a dele, como uma batalha, a do amigo, como um zelo fraternal. E assim foi. O menino buscou ser menos medo e mais. Quis chorar. O fez. Quis soltar os gritos secos, mas não pôde. Limites. E lágrima a lágrima, grito a grito (mesmo que velados) foi falando. E amigo ali, atento. Observador. Amigo.

As perspectivas foram delineadas. Eram duras, mas a verdade é assim. Doeu. Uma dor nova, não semelhante às anteriores. Uma dor que molda. Para o alto, para a luz. A ressignificação do sofrer foi iniciada. Era a principal. A mais oculta e de repente, acessível.

Para o menino era muito difícil ser percebido somente pelos momentos, pelas rápidas leituras que lhe foram dadas. E quão surpresa, senão a que o menino viveu: ele foi lido! E relido. Amado. Mesmo no gerúndio.

Era seguro para o menino encaixar-se no sofrer. Contraditório, eu diria. Mas o era. Contrário à canção, suas primaveras sempre eram outono, mesmo quando as flores estavam explícitas. Quis mostrar isso ao amigo. Acho que conseguiu (consegui?).

As lágrimas, os gritos, os medos, tudo deixou de encontrar endereço no menino. Era o momento do fim. Da virada. Sozinho sempre foi difícil, mas agora, parecia que era possível. O amigo e os poucos outros que o são começaram a ajudar ao menino.

E ficou um ensinamento em forma de tarefa: perceba-se, menino! Perceba-se! Há um amanhã! Há uma forma criativa de lidar com tudo! Mesmo que o menino caísse, mesmo que a oferta da viúva, que por vezes representava o menino, fosse mal cuidada? Fosse em vão?

O amigo alegrou-se pelos ocultos expostos. Ele estaria ali. Deixou a tarefa e, por carinho, foi-se, colocando a chave na soleira ou levando-a consigo, não deu pra ver. Oceanos turvaram a vista.

E assim, de forma densa e necessária se deu a primeira forma de admitir a verdade. Cabe agora ao menino cuidar do novo hóspede, não mais fantasma: si próprio. Abraçá-lo. Amá-lo.

O Abraço se fez concreto de novo. Forte. Demorado. O mesmo de ontem.

E eu fui tentar arrumar minha casa. Sozinho. Acompanhado.

Até breve.

...

domingo, 19 de agosto de 2012

Vãs tentativas

Tentar. Atentar? O que às vezes parece não é. Ou será que é?

Ele começou a perceber numa frase de Santa Teresinha que era preciso ser melhor e claro, ser feliz. Ela dizia o seguinte: 'Eu sou aquilo que Deus pensa de mim'. dessa forma, o menino começou a rever as cenas. Os conceitos e os pré conceitos (ou preconceitos?).

Para o menino, começou a ser corriqueiro o pensar alheio. Agora, eles podem dizer tudo o que quiserem dizer a seu respeito. Tentar derrubá-lo (forte expressão, não?). Porém, ele não vai permitir que mais ninguém consiga ter a audácia de colocar nuvens sobre ele.

E podem tentar até, mesmo em fazê-lo sentir que ele não importo a todos, porém, o menino se recusa a hesitar no que acredita ou perder a fé nos seus sonhos. 

Por que há uma luz nele que brilha forte. Podem tentar, mas é algo que o menino possui. Podem fazer qualquer coisa que quiserem. Mesmo que ele permita que os fantasmas entrem, agora ele consegue acolhê-los, deixá-los sentar e mostrar a pertença da casinha. Pelo visto, nunca ou quase nunca mais, hão de ganhar. 

Quando ele se agarrou ao amor próprio, nunca mais conseguiu deixar-se de lado. E como ele tem aprendido... A respeito da paz interior que é dele, as marcas do Eterno em sua alma. O menino também tomou posse de sua vida. das rédeas e dos argumentos. Elementos que os outros não podem mais possuir. Então ele resolveu não ter mais medo. E a escuridão desaparecerá...

Eles podem tentar, mas não podem tirar isso de mim...

Esse texto tem uma inspiração. É da música 'Can't Take That Away' by Mariah Carey. Fiz a minha leitura da canção, que há tempos me acompanha. Se já rezei com ela? Demais! Encontro a Deus no impossível, por vezes. E louvo-O por isso. Segue o vídeo, para quem quiser cantar, refletir, rezar...



Até breve!

Ü

sábado, 18 de agosto de 2012

As coisas nunca mais serão as mesmas

E as coisas mudaram.

A vida mudou.

O lugar comum e a tal (e temida) zona de conforto, gerou nele verdadeira alergia nesses tempos. Reflexões, esteriótipos, preconceitos, dogmas... O meninozinho tornou-se homem e com isso, uma gama de responsabilidades. E agora?

Ele nunca será o mesmo, estará preso dentro das memórias, das promessas e dos dias de ontem. 
Ele pertence agora ao tempo e  simplesmente não pode afastar-se, porque depois de decidir-se, ele nunca mais poderá ser o mesmo...

Noite e dia.
Do pôr-do-sol à torre rosada de grades negras. De país em país. De calçadas para auto-estradas, ele percebe que nunca mais será o mesmo. O que estou dizendo, é que a mente dele nunca havia mudado até que a decisão chegou e rearrumou tudo.

Mas às vezes parece completamente proibido descobrir aqueles sentimentos que foram tão bem escondidos: a alegria, o ter e o ser, feliz e inocente. Onde não existe nenhuma competição. E ele se rendeu às novas condições. 

Por vezes o improvável, não é impossível. Para uma decisão que poderia ser impossível de se deter. Mas espere! Exite ainda, uma linha tênue entre sorte e destino. Você acredita nas coisas que estavam simplesmente destinadas a acontecer? 

Quando ele me conta as histórias da sua busca por si, pitoresco se torna o quadro que ele pintava facilmente. As situações cotidianas, elas começam a simplificar-se. Então as coisas nunca serão as mesmas para ele. Atrelado à decisão de mudar e ser feliz, agora são uma só pessoa...

Se há ou não sentido no texto, não sei. Para mim, percebo e externalizo na medida do possível. O mais importante é reorganizar tudo, re-significar tudo e saber que, ainda na perspectiva da casinha e do pôr-do-sol, ele continuará a escrever no caderninho, soltando palavras e vivendo os sonhos...

Até breve!

Ü

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O caderno (ou O agradecimento ao pôr-do-sol)


Ele sempre gostou de escrever. Achava incrível que do seu pensar, surgiam além de palavras, construções que só existiam na sua cabeça. Os castelos, os cavaleiros, as princesas... o pôr-do-sol... ah, aquele pôr-do-sol que ele sempre desenhava à exaustação e que, com o passar do tempo, ele deixou de reproduzi-lo...

Ele tinha um caderno. Na verdade vários. Sempre bem cuidados e com uma amizade por eles, que beirava a confidência. Eles o entendiam, sabe? Sempre estavam lá, abertos às suas palavras, confidências, raivas, lágrimas...

Quando pequeno, ele apenas trocava-os anualmente. Aí ele cresceu. Quis ter os tais ''diferenciais'' de status que os jovens da sua época (ops... até hoje), queriam sempre ter. Serem ímpares. Únicos. Exclusivos... E assim ele se tornou.

Ele mudou muito quando criança até hoje. Claro. No entanto deixou para trás aquele ar pueril da confidência. Transformou muitas pessoas em cadernos. E quão a sua surpresa: a maioria não o entenderam....

Sua estória foi erroneamente escrita em cadernos-pessoas repletos de pompas, circunstâncias, diferenciais... Não souberam guardar, não souberam silenciar, não souberam acolher... Quando ele mais precisou ser amado, menos o foi. Quando mais ele precisou chorar, sequer os arames estavam lá para serem regados...

E então ele foi se fechando, se fechando... De repente, parecia um diário, daqueles com cadeado. Só que a chave... era imaginária e, preso em seu pensar, acabou perdendo a chavezinha...

Um certo dia, resolveu encontrá-la. Buscou em seus reinos, seus países, feudos e estâncias... Por vezes parava para ver o pôr-do-sol e, contemplando-o, lembrava-se da infância e o quanto era maravilhoso representar em seus caderninhos aquele espetáculo! Chorou.

Um lágrima atrás da outra, a vida gris começava a tomar cor. Era chato o cinza. Dava sono. Medo. Angústia. A cor não, Ah...  a cor aquece! O amarelo da alegria, o vermelho do calor, o verde da esperança, o azul da cor do mar! E ele correu, correu e lá no pôr-do-sol, antes do Rei deitar-se, ele encontrou a chavezinha. Chorou de novo e, ao retirá-la e colocá-la na tranca, qual surpresa: sorriu!

Sim, ele sorria de novo! Ele via de novo. Sentia, amava, errava (com menos frequência, mas errava), sonhava. Tudo novo. Tudo de novo...

Até a torre rosada de negras grades não parecia mais tão algoz como outrora. Era apenas uma passagem. Ele pode perceber que era maior do que ela. Mais forte. entendeu que o que lhe matava, na verdade dava-lhe forças. Era forte agora...

Reforçou no coração, com a ajuda dos cadernos certos; daqueles mais simples como os da infância, seus princípios, seu querer. Agora eram poucos cadernos. Não trocados anualmente ou semestralmente. Os poucos cadernos eram simples, repletos de novas folhas, cheios de luz e de misericórdia...

E ele pode mais uma vez, depois de tempos idos, desenhar, sonhar, chorar, confiar e seguir, rumo ao novo que está por vir, mas essa é uma estória nova, que será sonhada e escrita nessas folhas de sempre.

Eu prometo.

Ü


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O abraço adjetivo

[ABRAÇAR]: Verbo, presente do indicativo 1a pessoa singular de abraçar. Substantivo, masculino singular.

Sinônimos: abraçamento,  amplexo,   acolhimento, ligação, fusão, união,   gavinha, elo, cirro, aderência,  compressão, abraço, argola, liame encadeamento, relação, encadeação,   abarcamento, conexão,  afinidade...

Quem disse que todas as palavras acima e, quiçá, suas reticencias são possíveis e necessárias para expressar o poder desse ato fraternalmente divino e divinamente irmão?

Creio meus amigos, que temos aqui os ecos de um coração que vos escreve. Poderia recorrer aos renomados poetas e brilhantes escritoras para explicitar o que por vezes, meu coração teima em não expressar (ou expressa e apenas eu não percebo?)...

Conforme um deles, afirma-se que ''o abraço é o encontro de dois corações...'' Tanto o Cazuza quanto eu, gostamos dessa definição. Simples, bela e cheia de significados. Já tive outro coração comigo. Já tive vários dois outros. Uns foram outros ficaram. Por vezes só o meu (nessa hora me abracei...) e quando menos pensei em encontrar um coração irmão... a ''música do tempo'' permitiu que na torre rosada de grades negras, em uma tarde significativa, eu o encontrasse...

Foi forte. Desconcertante até. Foi a primeira vez. Mas é como se sempre eu o tivesse. Soltou amarras, lágrimas que caíram. Era um substantivo sendo adjetivado: abraço amigo, de cura, de acolhida. Abraço de permissão, de audição. De troca e de alegrias. De gerúndios...

Fui trabalhar naquele dia percebendo que a tinta cinza que vazou na minha tela da vida, não teve uma extensão tão grís quanto eu pensava. Não, ela era limitada! O abraço adjetivado, me mostrou que o óbvio que eu tanto combati, era vivenciado primeiramente por mim.

Aahh, quanto pesar por isso! Eu permiti! Eu! E o abraço adjetivo em seguida me mostrava que o incrível era o novo que despontava no encontro entre o cinza da tela e as cores da vida. E tanto me foi restituído, tanto me foi dado! 

Com o abraço adjetivo, percebi que a vida precisa seguir em frente. É constantemente re-significada. A vida pode e deve ser o reflexo dos meus erros e acertos. Quando criança, queria sempre recorrer ao cantinho do bolsinho do vestido da minha vó. É como se lá fosse meu refúgio. Cresci... rss... não caibo mais lá. Somente no coração daquela Ave-Mulher. 

O abraço adjetivo, me permitiu recorrer a mim mesmo antes de entristecer-me. Não à minha auto-suficiência (que não tenho), mas ao Abraço Maior, ao abraço da Ave-Maria, a outra Mãe que no seu manto me cobre e me dignifica...

E então passou-se o dia daquela música e com ele, a certeza de que o encontro nas negras grades da torre rosada, seria para sempre construído. É aí que entra o termo ''gerundiar'', criado pelos ecos desse coração que encontrou no abraço adjetivo, o sentido que faltava para ser mais feliz.

A conjugação permanece até então. Todos os dias, a cada mensagem, a cada encontrar, a cada 'tornar incrível' o que antes seria solidão e hoje, um aparecer do nada num santo local e ser surpreendido com o abraço adjetivo, acompanhado de tantos outros como o dele.

Compartilhar o pôr de vários sóis, as brincadeiras das mais infantis, com a inocência que me tinha sido roubada, os passeios, os cafés, o cuidar de novo da minha vocação de luz...

Amigo ou apenas abraço adjetivo. O tempo cuidará de fazer dessas palavras, eternais. Ele também cuidará de mostrar-nos a hora de transformar esse gerúndio, em infinitivo. Ademais, mostrará a mim, em especial, que nunca mais deverei esconder do mundo, os limites insondáveis que chegam os raios que brilham em meu viver.

Depois de tanto ser roubado de mim, obrigado por me devolver a mim. Assim como você, poucos outros que já estavam em minha casa, que entraram e levantaram as cadeiras outrora vazias, para que você sentasse, ceasse e me mostrasse junto a eles, tudo isso.

Não tenho palavras. Gratidão é pouco. Recorro, pois ao poeta inicial, quando diz que:

''E o medo era motivo de choro, desculpa pra um abraço, um consolo...''

Do amigo, João.

Ü